O senso comum me faria dizer o contrário. A grande imprensa, os jargões, as frases prontas também. Mas como o debutante colunista não possui compromisso com nenhuma destas vertentes e sim, com as tradições e a história do centenário clube, a frase me pareceu adequada. Sim, não podemos esquecer-nos dos inúmeros fracassos que transpassaram nossos corações, nossos sentidos, nossas esperanças.
Começamos o ano de forma perigosamente assustadora. O empate com o fraquíssimo e desconhecido Coronel Bolognesi, tão debutante na Copa Libertadores da América quanto este que agora escreve neste espaço, já nos demonstrava que o ano deveria sim, ser muito lembrado. Algo errado estava por vir. Algo estranho ainda aconteceria. O curso do ano foi seguindo e com ele, as correntezas desastrosas não se acanharam em mostrar suas forças, em devastar um exército que se armava para um ano de glórias. Após a primeira conquista, já tão comum a este exército, que beira à obrigação do pelotão, segue-se a primeira, dolorosa e talvez mais trágica de todas as derrotas. Uma batalha aparentemente vencida. Um exército oponente combalido. No entanto, a arrogância tão solicitada pelo General Rubro-Negro se fez presente e em larga escala. Fogos comemorativos, balões, tiros ao alto. E um histórico e arrasador 3 x 0. Mais uma vez, tal qual o ano anterior, nos vimos sem chão, sem norte, sem rumo. Sentimos-nos pequenos, minúsculos, tímidos, envergonhados, destruídos. O que era mais uma batalha vencida, dizimou com extrema violência mais de 35 milhões de soldados de nosso “poderoso” exército. Alastrou dores contidas, extravasou choros velados, exterminou sonhos dantescos.
Ali, desenhava-se um cenário que para nós, ardorosos amantes deste clube, representados pelo rubro da paixão, não acreditávamos que prenunciava o negro da derrota, da desesperança, da desilusão, da retidão. Nada mais poderia ser feito. A derrota estava consumada. Algo inimaginável acontecera.
Incansáveis que somos, partimos para o próximo combate. Este seria um combate longo, com diversos adversários. Os primeiros, fraquíssimos. Com as dores no peito e as fardas ainda rasgadas, iniciamos as lutas. Passamos pelo reserva santista. Fácil como deveria ter sido a batalha anterior. Agora sim, fizemos o nosso papel, a nossa obrigação. Seguiram-se os próximos combates e aos poucos, a auto-estima, o sentimento de força e as vitórias voltaram a fazer parte do nosso cotidiano. Mas algo ainda estava errado. Algo não se encaixava. O exército já apresentava sinais que apenas aqueles que não estão destinados ao sucesso, apresentam. Entre prostitutas e acidentes automobilísticos, vimos o Artilheiro se perder. Assistimos a saída, inertes, do nosso único armador, embora ainda sem grandes feitos, mas notadamente o único capaz de provocar algo lúcido e diferente justamente no setor de que mais carecíamos de talentos. Algo distinto, que nos fizesse por alguns instantes imaginar que não apenas contávamos com o arsenal de roubos de bola e passes laterais. Nosso exército, àquela altura, liderava a frente de batalha. Fazia-nos crer que o resto do ano, nos reservaria motivos irretocáveis para o êxtase. Para a celebração de algo que não celebramos há exatos 16 longos, duradouros e sofridos anos. No entanto, as perdas do exército começariam a externar uma fragilidade apenas resvalada naqueles 3 x 0. Se não queríamos, não podíamos acreditar que aquilo tinha alguma explicação lógica, agora, parece que a explicação que não veio, a razão que não foi sentida, apresentava suas primeiras nuances, os iniciais dos inúmeros motivos que nos farão, sem qualquer sombra de dúvida, lembrar-nos do ano que agora se esvai assim como a nossa última possibilidade de registrar algo positivo.
O ano então, foi notadamente e cristalinamente marcado por fracassos nos momentos mais decisivos, nos combates mais importantes. Óbvio que, não precisaria aqui, transcrever resultado a resultado, fracasso por fracasso. Todos nós lembramos, cada momento, cada movimento errado, cada ação atrapalhada, cada erro estratégico. Mas, a título de registro histórico, não posso me abster de grafar neste espaço, alguns das piores e mais decisivas derrotas e que, por elas mesmas, explicam o que todo o texto tenta racionalizar: São Paulo (duas vezes), Cruzeiro (duas vezes), Vitória (Maracanã lotado, bonito e festivo), Atlético Mineiro (Maracanã perplexo e com uma memória tão recente ainda no consciente coletivo rubro-negro. O mesmo placar, a mesma dor) e para finalizar, Goiás (a derradeira chance de mostrar que o exército merecia ainda algum crédito. O mesmo Goiás, do comandante que nos calou e enfureceu, quando tacitamente, afirmou: “O Flamengo não possui 20% da estrutura física do Goiás”).
Os confrontos mais decisivos, os jogos de “6 pontos”, quase em sua totalidade, foram perdidos. Jogadores com talentos questionáveis, condicionamentos atléticos ainda mais questionáveis, comportamentos profissionais altamente questionáveis, comandante extremamente questionável. De tudo isto e um pouco mais, concluímos que:
- Flamengo, o Clube de Regatas Flamengo, não é e nunca deverá ser, lugar para aprendizes. Aprendizes devem cumprir o trajeto que lhes cabe. O trajeto que cabe a qualquer profissional que inicia suas atividades. O mesmo trajeto que percorreu Muricy, que percorreu Luxemburgo e tantos outros que hoje são solicitações da grande massa rubro-negra para o comando de 2009. Não se pode e não se deve adotar a política de Ipatinga e Cianorte e transportá-la ao Flamengo, como se transporta água em caminhões pipa.
- Flamengo não pode e não deve permanecer anos a fio, sem conquistas maiúsculas. Tudo isto tem preço muito alto. Não estou aqui fechando os olhos para um tímido progresso nos últimos anos, porém, alertando aqueles que se contentam com o fim da luta contra rebaixamento como “progresso”. O verdadeiro Flamengo, aquele que arrasava as terras por anda andava, não é esse, não pode ser esse. O rubro-negro precisa ter essa consciência. Estou certo que, muitos que por aqui passarem, são naturais da Cidade Maravilhosa. Mas entendam: vocês iniciaram um movimento que se alastrou e conquistou o mundo. Hoje, temos o ÚNICO clube legitimamente e efetivamente nacional. O único que possui torcida forte, grande e respeitável em TODAS as regiões do país. E sendo assim, a título de manter uma rivalidade, a “gozação” do dia seguinte nas esquinas da cidade, não podemos apenas nutrir este gigante de títulos cariocas. Meus amigos, os milhões de torcedores que não coabitam a moradia local, não estão mais sendo convencidos pela festa da conquista local. Primeiramente, porque já não apresenta grande mérito. Finalmente, porque é pouco, muito pouco, para a grandeza de um clube nacional, que nasceu no Rio e resolveu criar morada nos corações mineiros, paraibanos, paulistas, paranaenses, baianos e em vários outros espalhados por todos os confins da Terra.
- A torcida continua crescendo, continua acreditando. Não é preciso um time avassalador, como já tivemos a honra e alegria de acompanharmos na era de glórias, mas ao menos, um time convincente. Ficou mais uma vez constatado que para superlotar os estádios brasileiros, basta um time que vença e convença. Como é fácil motivar o torcedor rubro-negro… Rubro-negro, tem por ofício ser persistente, esperançoso. Não são 16 anos de frustrações que nos farão menos fanáticos, menos apaixonados. Precisará muito mais que isso para derrubar de vez esses corações já tão machucados, mas ainda irresponsavelmente fortes.
Não, 2008 não pode ser esquecido. Terá que ser lembrado como parâmetro para que o contrário seja feito em 2009, em 2010, e nos seguintes. A arrogância solicitada, tem que dar lugar à humildade. O descompromisso tem que ser substituído pela fúria, pela gana, pela entrega total. O comando? Este, não preciso tecer nada mais a respeito. Apenas espero, com o coração esfacelado, que tenham aprendido as INÚMERAS lições dadas ao longo deste ano, que não poderão nunca, seren afastadas de nossas mentes. Por mais que nos doa, que nos machuque, que provoque em nós os sentimentos mais negativos precisamos mantê-las vivas nos palcos de nossos sonhos. Ao menos, até conseguirmos dar ao Flamengo o que a ele deve ser ofertado pelo legítimo direito conquistado por heróis de nosso passado, pelas conquistas e glórias tão festejadas em tempos que começam a ser tornar longínquos. E no momento em que for dado ao Flamengo o que é dele por merecimento histórico, então nós, estaremos aqui, como sempre, prontos para extravasar do peito o grito que mais uma vez não saiu, o choro alegre que não foi chorado. Aquele choro que lava a alma, que toca nas profundidades de nosso ser e que nos faz acreditar que ser Flamengo, é acima de tudo, uma condição de vida. E assim sendo, sem o verdadeiro Flamengo, a vida perde, a alegria inexiste e a paixão se cala… Ansiamos, momentaneamente.
Saudações Rubro-Negras!







